Engraxando sapatos.

Há quanto tempo você não vê alguém engraxando sapatos?

O que mais lhe vêm na memória deste pequeno e nobre ato cultural que praticamente desapareceu?

Será que todos nós deveríamos voltar a engraxar sapatos?

Já faz tempo, mas tenho em minhas lembranças aquela pequena caixa velha de algum sapato que se fora, com as graxas, pincéis, escovas e flanelas que meu pai guardava com tanto carinho. Normalmente era aos domingos a tarde que ele pegava seus dois pares de sapatos e começava um ritual que tinha cor, cheiro, som e conversa.

Era um momento que além da minha admiração, era uma hora de conversa sobre coisas que seriam certas de se fazer. Com certeza aquele ritual tinha algo a mais do que o simples ato de passar à graxa e lustrar. Ali, além da minha profunda admiração por ele, começava a entender que cuidar das coisas, apresentar-se limpo e bem apresentado era uma das características marcantes do meu pai.

Os ensinamentos iam muito além de tudo aquilo, o conjunto da obra se iniciava com o ato dos sapatos, mas as conversas e os ensinamentos percorriam todo um cotidiano de uma criança que com poucos momentos junto ao pai, apreciava sua obra e suas palavras.

Era ali, também, que o caráter de uma criança era reforçado e polido. Era presente o som da escova que insistia em fazer o sapato brilhar e em um ritmo confiante e consistente,  tinha minha chance de ouvir alguns dos tantos ensinamentos que precisava.

Nada de saudosismo, nada de viver no passado, nada de enxergar pelo retrovisor, mas quantas coisas que eram boas e necessárias perderam-se na modernidade, no tempo que não há…

Tenho meus momentos, quase que exclusivos com meu filho. De alguma forma achei situações e momentos onde nos olhamos de frente, olho no olho e dividimos experiências. Nos dias atuais, além de formador de opinião, assim como meus pais, é importante deixarmos nossas crianças se expressarem.

O que eles têm a nos dizer?

O que eles têm a nos perguntar?

O que eles têm a nos questionar?

O que eles querem ser quando crescerem, quais seus padrões e parâmetros do que é certo ou errado?

Você sabe quem é o ídolo do seu filho? A quem ele admira?

Os super heróis da Marvel são importantes sim, mas quais pessoas reais, ou quase reais, ele admira e utiliza de alguma forma para se espelhar!

Pensamentos intrigantes de um mundo que precisa de mais olhares e conversas tênues e seguras.

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